24
Out
09

Volta à casa do pai

O papa oferece condições especiais aos anglicanos que queiram se converter ao catolicismo

A história da Igreja da Inglaterra pode ser sintetizada em dois momentos de ruptura. O primeiro foi o seu estabelecimento como entidade independente, no século XVI. O segundo, a reforma que permitiu a ordenação de mulheres, em 1992. Desde essa última mudança, reina a cizânia entre os 80 milhões de fiéis. A nomeação, em 2003, de um bispo gay pela Igreja Episcopal, o braço americano da confissão, foi a gota-d’água para os tradicionalistas. Muitos deles foram, sem alarde, “nadar no Rio Tibre”, como os anglicanos desdenhosamente chamam a conversão ao catolicismo. A maioria, contudo, hesitava em dar esse passo por medo de perder sua liturgia e tradição. Na última terça-feira, Bento XVI ofereceu uma solução para essas dúvidas. Os anglicanos podem se converter sem que seja preciso sacrificar suas tradições. Até padres casados serão tolerados, com a ressalva de que não poderão ser bispos.

A exceção oferecida em decreto papal é similar à concedida às igrejas católicas orientais. A hierarquia reconhece a autoridade do papa, mas segue seus próprios ritos. O arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, chefe da Igreja da Inglaterra, declarou-se chocado com a oferta da Santa Sé. Mas, como líder da ala liberal da Igreja, ele é um dos responsáveis pelo cisma. O racha atual é tão profundo que foram nomeados dois bispos cuja única função é mediar conflitos entre liberais e tradicionalistas. Antes de se bandearem para Roma, os anglicanos têm vários aspectos a considerar. Dinheiro é um deles. O salário de um clérigo anglicano é o triplo do de um padre católico. Outra dúvida é o que a conversão significa para a identidade inglesa.

Na Inglaterra, a oposição ao papa é uma questão de estado. Os membros da família real não podem sequer se casar com católicos sem perder o direito ao trono. Tudo isso tem raízes profundas. O rompimento com Roma ocorreu no reinado de Henrique VIII, depois que o papa Clemente VII se recusou a anular seu casamento com Catarina de Aragão. Após rejeitar a autoridade papal, o rei pôde se casar com seu grande amor, Ana Bolena, que mais tarde mandaria decapitar. No princípio as mudanças foram pequenas, pois Henrique VIII pretendia que a Igreja da Inglaterra continuasse católica, ainda que separada de Roma. Tempos depois, a igreja aderiu à Reforma Protestante e o país passou por períodos sangrentos, com perseguições religiosas, até que o predomínio protestante ficasse bem assentado. O retorno dos anglicanos ao seio da Igreja Católica tem o sabor de uma vitória tardia sobre a Reforma Protestante.

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10
Out
09

O agito na rua do Senhor

Em São Paulo, uma via especializou-se em lojas e camelôs que vendem tudo aquilo de que os evangélicos precisam: bíblias, óleos de unção, música gospel, roupas de roqueiro…

Carolina Romanini

UM POUCO DE TUDO A vendedora Juliana Cristina e sua Bíblia com capa de listras. Acima, a fila no caixa do bazar  com mais de 3 000 produtos evangélicos

UM POUCO DE TUDO A vendedora Juliana Cristina e sua Bíblia com capa de listras. Acima, a fila no caixa do bazar com mais de 3 000 produtos evangélicos

Ruas especializadas são características da cidade de São Paulo. Há uma rua das noivas, uma de madeiras, outra de motores, a dos eletrônicos, a dos lustres, a dos joalheiros, a dos instrumentos musicais e, agora, como sinal dos tempos, a dos evangélicos, ironicamente localizada às costas da Catedral da Sé. Em pouco mais de duas quadras, há galerias, lojas e camelôs vendendo artigos de que fiéis e pastores possam precisar – desde bíblias até envelopes para a coleta do dízimo. Pode-se encontrar ali o mobiliário necessário para montar um templo. Esse é, por sinal, um, digamos, segmento de mercado em ampla expansão, com a abertura de 10 000 templos evangélicos por ano.

Durante a semana, o maior movimento na rua é de lojistas de todo o país em busca de mercadorias. No sábado é a vez do comprador individual. “Vim com a família comprar peças de vestuário para o novo grupo de jovens da igreja”, diz o paulistano Valteci Figueiredo dos Santos, que não resistiu à pechincha de três gravatas por 10 reais. O burburinho na Conde de Sarzedas é similar ao das vias de comércio popular das proximidades. A peculiaridade é que nela os camelôs e as barraquinhas de comida dividem as calçadas com pregadores e cantores gospel. Naturalmente, os ambulantes vendem produtos pirateados, só que autenticamente evangélicos. Por enquanto, o negócio é próspero para todos. “A pirataria ainda não conseguiu nos incomodar”, diz Renato Fleischner, editor-chefe da Editora Mundo Cristão, com estimativa de venda de 1,5 milhão de livros neste ano.

Na década de 90, as variadas denominações evangélicas se multiplicaram no Brasil. O número de fiéis cresceu quatro vezes acima da média da população brasileira. Ao contrário da maioria católica, discreta no que diz respeito a compras ligadas à religião, os evangélicos se revelaram consumidores vorazes. O mercado de produtos específicos para eles é estimado em 1 bilhão de reais, o dobro de quatro anos atrás. O apetite consumista se deve bastante aos pentecostais (confissões mais antigas e severas em questões de vestuário e comportamento), como a Assembleia de Deus, com 15 milhões de fiéis, e aos neopentecostais (mais recentes e liberais em relação ao comportamento do fiel), como a Universal do Reino de Deus, com 8 milhões de seguidores.

Sete anos atrás, a primeira edição da ExpoCristã, a maior feira de negócios evangélicos da América Latina, em São Paulo, reuniu 58 expositores e recebeu 4 500 visitantes. Neste ano, o número de expositores chegou a 315 e o de visitantes passou dos 150 000. Há também versões mais modestas montadas em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Estima-se que três de cada dez CDs vendidos no país sejam de música gospel. Um dos discos de Aline Barros, a mais popular cantora evangélica, vendeu mais de 3 milhões de CDs e DVDs. Nas prateleiras da Ebenezer, a maior loja da rua, pode-se escolher qualquer gênero musical – pagode, rap, heavy metal, todos devidamente evangélicos.

Na Brother Simion, é difícil conciliar a imagem tradicional da religião com as jaquetas de couro, correntes de metal e bolsas de padrão oncinha do estilo roqueiro. Quem entra é recebido por uma vendedora de cabelos vermelhos. “Boa tarde, irmã, olha que linda essa mochila que acabou de chegar”, diz Juliana Cristina Melo, 20 anos, na loja há sete meses. Ela é uma vendedora elétrica, atenta a cada freguês que entra. “Foi Jesus quem me deu o dom da comunicação fácil”, explica Juliana. Ela divide o atendimento com o dono da loja, Brother Simion. Cinquentão, com uma carreira de sucesso no rock gospel nacional, ele gosta de contar seu momento de “iluminação”. “Fui morar na Holanda e me envolvi com drogas”, relata. “Então conheci Jesus e voltei meu rock para a música gospel. Hoje, minha missão é ‘descaretizar’ a religião”.

Pelo menos uma dezena de pregadores tenta ao mesmo tempo atrair novos fiéis e vender alguma coisa na Conde de Sarzedas. Alguns pregam aos gritos, outros tocam música com caixas de som em alto volume. Israel Dias, 38 anos, é cantor gospel há quatro e disputa todos os dias um espaço na rua para propagandear seus dois CDs – ambos de produção independente. Ele sai de Santo Amaro, no sul da cidade, às 8 da manhã e caça fregueses na rua por cinco a seis horas. No meio do dia faz uma pausa para se perfumar e arrumar o terno impecável. “É isso que cativa os clientes”, diz Israel, que fatura de 150 a 200 reais por dia. Dá uma boa renda mensal. Deus seja louvado!

VERSÕES MUSICAIS O camelô que vende CDs pirateados de música gospel e, ao lado,  o cantor Israel Dias oferece sua produção independente

VERSÕES MUSICAIS O camelô que vende CDs pirateados de música gospel e, ao lado, o cantor Israel Dias oferece sua produção independente

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05
Out
09

Cristianismo

24
Set
09

Apóstolos

16
Set
09

João Batista

25
Ago
09

Uma experiência radical

Brutalmente realista nas cenas de tortura, Anticristo, de Lars von Trier, merece toda a polêmica que levantou. É um filme sádico – mas também uma obra de uma coragem heroica

Isabela Boscov

O CAOS REINA Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe em cena do filme de Von Trier (à esq.): exposição  quase pornográfica do sofrimento

O CAOS REINA Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe em cena do filme de Von Trier (à esq.): exposição quase pornográfica do sofrimento

Lars von Trier é um diretor de imenso talento, e também um manipulador contumaz. Desde que começou a subverter o movimento do qual foi fundador – o Dogma, aquele da câmera na mão, iluminação natural e nada de trilha sonora –, o dinamarquês tem depurado, em filmes como Ondas do Destino, Dançando no Escuro e Dogville, um gênero que se poderia definir como melodrama experimental, no qual aplica surpreendentes inovações narrativas à missão ancestral de induzir tanto seus atores quanto os espectadores ao sofrimento. Manipular, porém, é algo que se faz pela ambição do controle, e é natural que Von Trier parecesse se colocar à parte, ou mesmo acima, das emoções que instigava. Em Anticristo (Antichrist, Dinamarca / Alemanha / França, 2009), entretanto, o diretor pela primeira vez cruza essa linha: no filme que estreia nesta sexta-feira no país, Von Trier mostra estar também ele sendo fustigado pelos sentimentos tremendos desencadeados pela história. Não por acaso, no último Festival de Cannes ele conseguiu assim pôr em estado de choque uma plateia que não só é a mais blasée do mundo como está preparada de antemão a esperar dele trabalhos saturados de controvérsia e transgressão.

No magnífico prólogo de Anticristo, rodado em preto e branco e em câmera lenta (aliás, num dos mais belos usos já feitos desse recurso), um casal faz sexo de forma idílica e apaixonada, ao som de uma ária de Händel, enquanto seu filho pequeno sai do berço, é atraído para uma janela pela neve que cai lá fora, e despenca. Seguem-se três “capítulos”, intitulados Luto, Dor e Desespero, nos quais o diretor desdobra até o limite, e para além dele, as repercussões dessa perda. A mulher, chamada apenas de Ela, enlouquece de luto – e Von Trier, conhecido pelos extremos a que sujeita suas atrizes, tira da francesa Charlotte Gainsbourg um retrato tão animalesco da dor que assistir a ele é quase pornográfico. O marido, chamado de Ele e interpretado pelo americano Willem Dafoe, personifica a reação oposta – a racionalização, e também a arrogância implícita nela. Psicoterapeuta, Ele esboça um plano para obrigar Ela a enfrentar as etapas do luto, e então sair dele, sem a ajuda de medicamentos. Uma vez que todas as emoções mais intensas e confusas da mulher parecem convergir para Éden, a cabana isolada nas montanhas em que ela passou o último verão com o filho, Ele leva-a para lá. E lá, nesse paraíso perdido, Ela e Ele vão se impor, um ao outro e a si mesmos, martírios terríveis, encenados ora de forma onírica (mais certo seria dizer à maneira de um pesadelo, ou de um delírio), ora de maneira brutalmente realista.

Von Trier tem o dom inato de tocar certos nervos e de, pela resposta que provoca com esse toque, expor o espectador de maneira desconcertante. Em Cannes, a fúria correu solta na plateia – contra imagens inexplicáveis, como a da raposa que diz, com voz rouca, que “o caos reina”; contra a suposta misoginia do diretor, já que a certa altura Ela passa a crer que as mulheres são as instigadoras desse caos e que a natureza, que elas representam, é o templo de Satanás; e acima de tudo contra as cenas demoradamente explícitas de tortura, nas quais Ela golpeia o sexo do marido, bate uma estaca em sua perna e prende a ela uma pedra e, então, corta o próprio clitóris com uma tesoura enferrujada. Ler Anticristo ao pé da letra, porém, é rejeitar uma experiência radical, estranha, incômoda, mas em última análise brilhante. Seria mesmo possível dizer heroica: da mesma forma que os sentimentos se abrem diante do espectador como abismos escuros, nos quais se cai sem saber quando se encontrará o fundo, também Von Trier se deixa tragar por eles. Anticristo não é um filme que deve ser explicado (nem pelo diretor, segundo o qual pedir dele uma justificativa seria como exigir da galinha que explicasse a canja). Deve ser atravessado e enfrentado. Deslindá-lo, principalmente à luz do elemento inesperado que Von Trier introduz no desfecho, ao recapitular aquele lindíssimo prólogo, é tarefa para os dias ou as semanas seguintes. Não que haja grande esperança de resolver afinal suas contradições, nem de compreender todas as atribulações que ele provoca. A única certeza que se pode ter, aqui, é a de estar diante de algo raro, se não único – um artista de coragem absoluta, e de despudor irrestrito.

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15
Ago
09

Cheque ao bispo

O Ministério Público de São Paulo acusa Edir Macedo e mais nove integrantes da Igreja Universal de usar o dinheiro de doações de fiéis para fazer negócios e engordar o próprio patrimônio

Laura Diniz

AGORA, RÉU Fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo  é acusado de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro

AGORA, RÉU Fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo é acusado de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro

Há 32 anos, os templos da Igreja Universal do Reino de Deus recebem ricos e pobres, crédulos e descrentes, doentes, despossuídos e desesperados. A todos a igreja oferece consolo e, muitas vezes, também uma porta de saída para escapar do vício, do crime e da solidão. Mas cobra caro por isso. Baseada numa particular Teologia da Prosperidade, a Universal, fundada e chefiada pelo bispo Edir Macedo, prega que a maior expressão da fé são as oferendas de dinheiro à igreja (e também de carros, casas e cheques pré-datados). A ideia de que, “quanto mais se doa, mais Deus dá de volta”, levada ao paroxismo pela eloquência dos bem treinados pastores da Universal, já fez com que almas crédulas arruinassem suas finanças, seu casamento, sua vida. O Código Penal, contudo, não alcança práticas religiosas. Em linhas gerais, se um brasileiro quiser doar tudo o que tem a qualquer igreja, estará livre para isso. E quem receber a doação também não encontrará empecilhos na legislação. O que não se pode é tapear a lei – e é precisamente isso o que vêm fazendo Macedo e outros nove integrantes da cúpula da Universal, segundo uma peça de acusação elaborada por promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo. A partir da denúncia oferecida pelo Gaeco, e aceita pela Justiça na última segunda-feira, Macedo e seu grupo tornaram-se réus em um processo criminal sob as pesadas suspeitas de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

Com base numa investigação de dois anos, o MP afirma que Macedo e seu grupo se converteram em uma organização criminosa ao usar as doações de fiéis para engordar seu próprio patrimônio – no caso do bispo, nada desprezível. Além de dono de 90% da Rede Record, Macedo e a mulher, Ester Eunice Rangel Bezerra (ela, dona dos outros 10% da emissora, segundo aparece no contrato de concessão), têm uma coleção de imóveis que incluem, apurou VEJA, dois apartamentos em condomínios de luxo em Miami, nos Estados Unidos: o primeiro, em nome de Ester, foi comprado em 2006 e está avaliado em 2,1 milhões de dólares. O segundo, registrado em nome do casal, foi adquirido no ano passado e custou mais do que o dobro do primeiro: 4,7 milhões de dólares. Ambos ficam na Collins Avenue, um dos endereços mais sofisticados da cidade.

Segundo a denúncia do MP, além de enganar os fiéis embolsando o dinheiro que deveria ter destinação religiosa, a Universal burla o Fisco ao aproveitar-se de sua imunidade tributária e fazer transações comerciais. A imunidade fiscal assegurada pela Constituição às igrejas baseia-se no princípio de que seu patrimônio, renda e serviços visam à atividade religiosa, e não ao lucro. Quando o dinheiro dos fiéis é usado para comprar empresas e jatinhos – caso dos pastores da Universal, segundo o MP –, a Justiça tem de ser acionada.

Em 1997, uma auditoria da Receita Federal sobre as contas da Universal já havia produzido um relatório defendendo que ela perdesse a imunidade fiscal, uma vez que vinha fazendo uso do benefício para ganhar dinheiro. Dez anos mais tarde, ao analisar a situação de cinco igrejas evangélicas, entre elas a Universal, a mesma Receita chegou a iniciar um estudo para regulamentar o uso das doações de dinheiro originário da fé (livre de tributos) em empreendimentos tributáveis. O projeto não foi adiante. Para o advogado da Universal, Arthur Lavigne, a denúncia do Gaeco apenas reúne tudo o que já foi dito contra a igreja desde 1992. Nesses dezessete anos, diz ele, houve mais de dez processos contra  a Universal, e apenas dois estão em andamento, incluindo o que foi aceito pela Justiça na semana passada.

As primeiras investigações sobre as atividades de Edir Macedo e seu grupo na Igreja Universal começaram dois anos antes da investida da Receita. Em 1995, depois da divulgação de um vídeo em que Macedo aparecia ensinando pastores a arrancar dinheiro de fiéis, autoridades federais deram início a uma varredura nas atividades da igreja, mas, até agora, poucas irregularidades haviam sido comprovadas. A diferença entre essas investigações anteriores e o trabalho do Gaeco é que, desta vez, os promotores conseguiram mapear o caminho do dinheiro, desde as doações dos fiéis até a compra de duas emissoras de TV, um prédio e um jatinho modelo Cessna, por 2,5 milhões de reais.

Entre 2001 e 2008, a Universal, segundo os promotores, amealhou 8 bilhões de reais de seus cerca de 8 milhões de seguidores. Metade dessa dinheirama foi parar em contas bancárias da igreja por meio de 4 015 depósitos em espécie – direto das sacolinhas dos dízimos. A outra metade chegou, principalmente, por meio de transferências eletrônicas provenientes de filiais da igreja espalhadas pelo país. A partir daí, o esquema funcionava da seguinte maneira, de acordo com a acusação: a maior parte do dinheiro era repassada, a título de “pagamentos”, para empresas de fachada controladas por integrantes do grupo, a Cremo Empreendimentos e a Unimetro Empreendimentos. Ambas movimentaram, entre 2004 e 2005, mais de 70 milhões de reais, ainda que não tenham oferecido no período nenhum serviço ou produto, segundo atesta a Secretaria da Fazenda de São Paulo. Da Cremo e da Unimetro, o dinheiro dos fiéis era enviado para empresas sediadas em paraísos fiscais: a Investholding, nas Ilhas Cayman, e a CableInvest, nas Ilhas do Canal. De lá, retornava ao Brasil disfarçado de empréstimos para pessoas ligadas à Universal, que usavam os valores para transações nada religiosas. Apesar do emaranhado trajeto percorrido pelo dinheiro, ele, na verdade, nunca saiu das mãos da cúpula da Universal. A Cremo é de propriedade da Unimetro – que, por sua vez, pertence às duas empresas sediadas no exterior. No Brasil, a Investholding e a Cableinvest são representadas por Alba Maria da Costa e Osvaldo Sciorilli, executivos da Universal, ligados a diversas empresas do grupo e réus no processo. Assim como o chefe, Alba e também Maurício Albuquerque e Silva, ex-diretor da Cremo e da Unimetro, são proprietários de imóveis em Miami.

O Gaeco sustenta que foi esse o esquema usado pela igreja para comprar, por exemplo, a TV Record do Rio de Janeiro e a TV Itajaí, de Santa Catarina. Ao todo, o império de comunicação da Universal reúne 23 emissoras de TV, 42 emissoras de rádio e várias outras empresas. O do bispo prospera na mesma medida. Em 2007, ele se esmerava na construção de uma casa de 2 000 metros quadrados em Campos do Jordão (SP), no valor de 6 milhões de reais. Naquele tempo, já era proprietário de outra casa na mesma cidade, comprada onze anos antes por 600 000 dólares. Somem-se a isso os imóveis de Miami e não restará dúvida de que Macedo é um abençoado. Resta saber se à luz da lei tanta prosperidade também poderá ser comemorada.

CASA DE DEUS, CASA DO BISPO Um dos templos da Universal em Belo Horizonte e a casa construída por Edir Macedo em Campos do Jordão

CASA DE DEUS, CASA DO BISPO Um dos templos da Universal em Belo Horizonte e a casa construída por Edir Macedo em Campos do Jordão

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05
Ago
09

Nossa Senhora das Neves

Nossa Senhora das Neves é um dos apelativos pelo qual a Igreja Católica venera Maria segundo o culto de hiperdulia.

Nossa Senhora das Neves é também conhecida como Santa Maria Maior. o título de Nossa Senhora das Neves é devido a uma antiga lenda segundo a qual um casal romano, que pedia à Virgem luzes para saber como empregar a sua fortuna, recebeu em sonhos a mensagem de que Santa Maria desejava que lhe fosse erigido um templo precisamente num lugar do monte Esquilino que aparecesse coberto de neve. Isto aconteceu na noite de 4 para 5 de agosto, em pleno verão: no dia seguinte, o terreno onde hoje se ergue a Basílica amanheceu inteiramente nevado.


WIKIPÉDIA

24
Jul
09

Lubna e as 40 chibatadas

Tony Belotto

Lubna, uma jornalista sudanesa, está num café de Cartum, capital do Sudão, acompanhada de doze amigas. Elas conversam animadamente quando são interrompidas por uma patrulha de agentes de uma espécie de força religiosa local. Lubna e suas companheiras são acusadas pelos patrulheiros de estarem vestidas indecentemente. Segundo a sharia - lei islâmica em vigor naquela parte do país -, mulheres vestidas indecentemente devem ser punidas com chicotadas.

O que os zelosos patrulheiros islâmicos chamam de “indecente” é o fato de Lubna e as amigas estarem vestidas com calças compridas e blusas, à moda ocidental. As amigas de Lubna decidem se declarar culpadas – por medo de consequências piores – e recebem ali mesmo, na mesma hora, 10 chibatadas cada uma, aplicadas pelos patrulheiros. Além disso, cada uma delas paga uma multa de 250 libras sudanesas – que equivalem a mais ou menos 120 dólares.

Ao contrário das amigas, Lubna opta por acionar um advogado e enfrentar o julgamento. Agora ela aguarda o promotor definir a data da audiência. Lubna sabe que provavelmente receberá as 40 chibatadas a que a sharia a condena (a mulher que se declara culpada na hora ganha um “desconto”, levando apenas 10 chicotadas). Mas sabe também que, por ter tornado público o seu julgamento, torna-se um exemplo de luta pela liberdade. Força, Lubna. Que a cada chicotada que lhe apliquem, dez mil mulheres se insurjam contra a opressão religiosa e masculina.

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03
Jul
09

São Tomé, apóstolo